quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"Bota aí que a gente está investigando o caso..."

A proximidade com o cotidiano de violência do Rio mexe com o emocional de qualquer repórter. E nesta quarta-feira fui tomado pela indignação, quando fazia uma reportagem sobre a morte de um menino de 15 anos, com um tiro no rosto, em assalto num posto de combustíveis, na Avenida Radial Oeste, em frente ao Morro da Mangueira.

Eduardo trabalhava há três meses numa borracharia em frente ao posto. Pouco depois do meia-dia, ele e o patrão atravessaram a avenida e foram até a loja de conveniência, onde o garoto pediu uma porção de pães de queijo e uma bebida da Neston. Um assaltante chegou para roubar o posto, mas foi em direção ao patrão de Eduardo quando percebeu o cordão de ouro usado por ele.
O adolescente, então, se atracou com o bandido e foi surpreendido por um comparsa, que acertou um tiro fatal no rosto de Eduardo, que morreu no local. Encontrei a mãe, uma tia e o padrasto no IML. Depois de conversar com eles por uns 15 minutos, saí de lá triste...

Profissionalmente, faltava ouvir a polícia, saber o que já havia sido feito; se havia suspeitos, enfim... Fui então para a Divisão de Homicídios, na Barra. Na porta, um delegado. Perguntei então sobre o caso. O policial havia a cabado de chegar e ainda não sabia do que se tratava. Pediu pra que eu contasse a história...

Diante do meu relato, o delegado respondeu: "Essa história não é grande coisa, né? Deve ser uma notinha amanhã no jornal. Não perde muito tempo com isso, não. Bota aí que a DH está investigando o caso, que não descarta nenhuma hipótese, mas que a princípio trata-se de latrocínio. Tá bom? Um abraço".

Já sei, você deve estar chocado. Eu também fiquei. Que o policial não tivesse conhecimento do caso, tudo bem. Imaginei, no entanto, que ele fosse se informar e dar uma resposta descente à sociedade. Sim, porque eu não apuro uma reportagem para mim, mas para informar a população. Imaginei até que ele se limitasse a dizer que não falaria sobre o caso. Seria aceitável.

Na hora, pensei naquela mãe, que dizia querer apenas justiça, queria a prisão dos bandidos que tiraram a vida de um filho, o mais carinhoso dos três. Pensei também na função da Divisão de Homicídios. Pensei nos recursos humanos, materiais e tecnológicos, que a unidade dispõem. E no descaso... saí de lá indignado.

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