terça-feira, 5 de maio de 2009

Fotografou enterro de bandidos e entrou na porrada

Por Marcelo Bastos

Há mais ou menos 20 anos, o jornal O Dia publicou matéria sobre uma operação policial na Rocinha que terminou com dois mortos. No dia seguinte, como de costume, os bandidos ganharam destaque na primeira página. Até aí tudo bem. O problema é que a chefia mandou uma equipe de reportagem cobrir o enterro dos marginais, no cemitério São João Batista, em Botafogo. E foi a única entre todas as redações do Rio.

'Cascudo', o fotógrafo (que ainda está em atividade) recebeu um aviso nada amigável para não fotografar o enterro de maneira alguma. Na verdade foi uma ameaça, já que o interlocutor estava devidamente armado. Na sua cola, uma repórter novata, a chamada foca, insistia para que o colega fizesse fotos do cortejo e sepultamento. Com medo e a certeza de que o tempo fecharia para o lado dele caso fizesse o seu trabalho, o fotógrafo acabou cedendo aos apelos da colega, que desesperadamente insistia na foto. "É um pedido da chefia", dizia ela.

Sem uma 'tele', lente que permite fazer fotos a uma distância segura, o fotógrafo procurou uma sepultura para se esconder e marcou posição. Quando o cortejo passou com os corpos ele apertou o dedo e registrou o momento. Quase que automaticamente, uma multidão largou os caixões, correu na sua direção e o cercou. Restou ao colega se proteger e suportar a surra movida a socos, chutes e tudo mais que tiver direito. "Era tanta gente que as pessoas disputavam espaço para me bater", lembra ele.

"Vão matar o meu fotógrafo!"
Enquanto o pau comia, a repórter simplesmente gritava "vão matar o meu fotógrafo! Vão matar o meu fotógrafo!" Além das inúmeras pancadas, o retratista do jornal teve um óculos Ray Ban (folheado a ouro, segundo ele) quebrados, bem como o equipamento fotográfico, que foi completamente destruído pelos agressores. Ao chegar na redação moído de tanta porrada, ainda teve de ouvir do chefe: "pô, companheiro. Logo você, um profissional experiente, foi dar um mole desses..."

Moral da história: jornalista sempre se dá mal. Se não tivesse feito a foto, o colega levaria esporro. Com fez a imagem e entrou na porrada, levou esporro do mesmo jeito. Vai entender...

3 comentários:

  1. eu ja presenciei um caso de jornalistas apedrejados durante o enterro de um traficante, de um parente rasgando bloco de repórter no cemitério do Caju, de uma fotógrafa apanhando de familiar de preso morto no complexo de Bangu, histórias não faltam.

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  2. Sem dúvida. Não raro somos vítimas do nosso trabalho. Acontece.

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  3. temos que ter muito cuidado com esses pivete das ruas, e da muita educação para os nossos filhos para ñ crescer assim é o que eu acho!

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