quinta-feira, 16 de abril de 2009

Trens: os capitães do mato já foram punidos. Mas e os senhores de engenho?



Por Marcelo Bastos

Reclamações sobre as condições dos trens urbanos do Rio e do serviço prestado pela Supervia chegam às redações de jornais, rádios e TVs às dezenas todos os dias. Vagões superlotados, atrasos, falta de segurança e o calor insuportável são as queixas mais comuns. Isso para não falar sobre uma Lei que nunca funcionou na prática: a do vagão feminino.

De modo geral, a imprensa nunca dá muita bola para esse tipo de denúncia, pois como acontece todos os dias, deixa de ser notícia, ao menos em tese. Mas desta vez, o sofrimento pelo qual passam cerca de meio milhão de pessoas por dia teve o tal gancho que os jornalistas tanto precisam para produzir suas reportagens: a greve dos ferroviários e o conseqüente caos provocado por ela, que se agravou ainda mais quando funcionários da concessionária foram flagrados agredindo passageiros com socos, chutes e golpes de 'corda de apito', que chamamos todos de chicotadas ou simplesmente açoite.

Nós, passageiros dos trens, devemos agradecer a sorte que teve a TV Globo em gravar as tais imagens. Acredito que o cinegrafista Eduardo Torres deve ter ido para essa pauta de meio desanimado, pensando que faria as mesmas imagens de todos os dias anteriores: trens lotados com gente pendurada na porta. Agora, vai ganhar todos os prêmios de jornalismo que disputar. Tudo bem, a sorte faz parte do negócio. Parabéns, companheiro! Mas caso esse flagrante não existisse, a reclamação destes passageiros ganharia uma linha no pé da página ou uma nota pé no fim da matéria.

Digo 'nós' porque ando de trem desde que me entendo por gente e conheço bem a rotina sobre trilhos, de Japeri à Central do Brail. Penso, no entanto, que os agentes não devem ser os únicos a serem punidos nesse caso. Afinal, esses homens de colete vermelho não são sequer seguranças. Alguns são ex-camelôs que durante muitos anos venderam produtos dentro do próprio trem. Esses funcionários combatem unicamente o trabalho dos ambulantes e nunca os vi agredir de tal forma passageiros que disputam espaço na porta dos vagões porque simplesmente não há outro jeito. Nos vândalos que andam nas portas por livre e espontânea vontade, mesmo com os vagões vazios eu até acredito, mas em trabalhadores, com tamanha brutalidade?

Punição precisa ir muito além
Essa agressão pode ter uma explicação que certamente atinge outras pessoas e figuras muito mais importantes do que meros agentes sem qualquer preparo. Afinal de contas, imagens de trens circulando com as portas abertas era a única coisa que se via na imprensa desde o início da greve, na segunda-feira. Posso até apostar que esses homens receberam ordens para coibir essa prática inevitavel de todas as formas possíveis para que essas imagens não se repetissem e a empresa não ficasse mal no vídeo. Só que a falta de preparo e a truculência entraram na plataforma e provocaram o estrago.

Os funcionários foram comparados por parte da imprensa a capitães do mato, dos tempos da escravidão, por açoitarem seus semelhantes quando um pequeno poder lhes foi outorgado. Mas, assim como naqueles tempos, alguém acredita que esse comportamento não seja, no mínimo, do conhecimento dos senhores de engenho?

2 comentários:

  1. Cara, sou fã do seu blog. Na loucura do dia a dia da redação, ainda encontras tempo de manter este blog atualizado e com boas notícias, além de um texto que atrai. Parabéns. Leitura obrigatória para quem aprecia o tema.

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  2. Valeu Rosa! Difícil mesmo encontrar tempo mesmo para atualizar o blog, já que a nossa rotina consome grande parte do tempo. Mas comentários como este e a força que alguns colegas têm dado me fazem chegar em casa todos os dias e colocar ao menos um post que seja no Temos Isso?. Vamos que vamos!

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