quarta-feira, 1 de abril de 2009

Gravação do 190 ajuda Justiça a absolver PM acusado de fazer parte da Liga da Justiça

Por Marcelo Bastos

Uma gravação telefônica feita pelo serviço de atendimento 190, da PolíciaMilitar, foi fundamental para a decisão da Justiça em absolver o sargento PM reformado Airton Padilha de Meneses, de 42 anos, preso em julho do ano passado, acusado de porte ilegal de arma e de ser integrante da milícia conhecida como Liga da Justiça. A ligação foi feita pela esposa de Airton no momento em que homens a serviço da 35ª DP (Campo Grande) entraram na casa da família, em Inhoaíba, na Zona Oeste do Rio.

“Os homens vestidos de polícia civil levaram o meu marido. Chegaram aqui em casa, plantaram uma arma aqui na minha casa, deram na minha cara, com aminha filha no colo. Pelo amor de Deus, moça, manda uma viatura aqui em casa”, dizia, desesperada, a mulher do PM, Ana Paula Pereira da Silva. Ela ligou para o 190 no momento em que a equipe da 35ª DP chegava à sua casa. A mulher de Airton deixou o telefone fora do gancho e boa parte do que foi conversado no interior da residência foi gravado pela PM.

'Policiais' também foram flagrados pela gravação
Ela estavacom os quatro filhos pequenos dentro de casa e, além do desespero de AnaPaula, é possível perceber a voz dos policiais e informantes que participaram da ação, alguns identificados como os ex-PMs, FranciscoCésar Silva Oliveira, o Chico Bala, Hebert Canijo da Silva, oEscangalhado, e o terceiro sargento do Corpo de Bombeiros, Carlos AlexandreSilva Cavalcante, o Gaguinho, este assassinado no início do ano.“Deita no chão, deita no chão”, diz um deles assim que entram na casa.“Cadê a outra? Cadê a outra? Quando encontrar vai ser pior. Tá onde? Tá onde?”, diz um dos policiais, querendo saber onde está o quarto filho do casal, que estava escondido. Os outros três, a mãe orienta o tempo todo para que se escondam embaixo da cama.

Promotor aponta ilegalidades
Ana Paula fala à atendente que os homens que chegaram à sua casa deram tiros para o alto e no portão da casa dela. De acordo com a sentença judicial, o promotor Juan Luiz Souza Vasquez explica que a pistola calibre 45 que a polícia apresentou como sendo de Airton foi encontrada por uma pessoa que não é policial civil ou militar, o bombeiro Gaguinho, o que é ilegal. Ainda de acordo com o relato do promotor, a autoridade policial que conduziu a operação, o delegado Eduardo Soares, não soube dizer onde a arma foi encontrada. O delegado não tinha também autorização judicial para entrar na casa. “O próprio delegado afirmou que não tinha percebido o acusado portar qualquer arma de fogo ou praticar qualquer ilícito penal que justificasse a entrada na residência do denunciado". Outro indício de ilegalidade apresentado por Juan Luiz, é o fato de militares expulsos da PM e do Corpo de Bombeiros terem participado da ação.

PM cumpriu pena até em Catanduvas (PR)
Houve ainda uma contradição entre a versão da polícia civil e a da PM. Um tenente da PM lotado no Batalhão Especial Prisional, para onde Aiton foi levado relata que o acusado chegou à unidade muito machucado, principalmente no rosto, e que a equipe da 35ª DP sequer revistou Airton, visto que ele chegou à carceragem do BEP com seus dois carregadores de pistola na cintura. Já o juiz Rubens Casara, da 2ª Vara Criminal de Campo Grande, justificou a absolvição: “ilegalidade não se combate com ilegalidade”. Airton ficou 12 dias preso por esta acusação, em julho do ano passado, e mais 60 dias na penitenciária federal de Catanduvas (PR) pela acusação de crime eleitoral, já que na casa dele foi encontrado material de campanha da vereadora Carminha Jerominho. Ana Paula é assessora de Natalino Guimarães.

Delegado afirma que Chico Bala "usou" a polícia
Já o delegado Eduardo Soares, que chefiou a operação, confirmou a participação de Gaguinho, Chico Bala, Escangalhado e até do ex-PM Alexandre da Silva Monteiro, o Popeye, nessa operação. Soares informa ainda que Chico Bala 'usou' a Polícia Civil, por hoje comandar uma milícia na ZonaOeste, rival à de Ricardo Teixeira Cruz, o Batman. Já Marcus Neves, titular da delegacia na ocasião, disse que Chico Bala se aproveitou de um espaço que a prisão de integrantes da Liga da Justiça provocou na região. "Nós investigávamos a Liga, mas os outros grupos estão sendo investigados por outros órgãos, como a própria PM, que expulsou o Chico Bala", disse.

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