domingo, 26 de abril de 2009

Construção de creche no Jacarezinho não acaba com a cracolância, apenas a transfere de lugar

Por Marcelo Bastos

No início da semana, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, anunciou a construção de uma creche numa das entradas da favela do Jacarezinho, na Zona Norte. A construção vai ocupar uma área que era usada para prostituição infantil e consumo excessivo de crack e, por isso, foi batizada de cracolândia (foto). Com capacidade para atender 120 crianças, será financiada por recursos do PAC e tem previsão de conclusão para dezembro, embora as obras ainda não tenham sequer começado.

Diante de uma notícia como essa, fico pensando nos reais motivos da construção dessa creche. Localizada na Avenida Dom Hérlder Câmara (antiga Suburbana), divisa entre Jacarezinho e Manguinhos, certamente será mais uma a ficar sem aulas quando a polícia fizer operações e houver troca de tiros com os traficantes, o que não é raro na região. Vai ser mais uma a aparecer nos jornais, com fotos de crianças em pânico e com frases desesperadas de professores e pais.

Mães têm cada vez mais filhos
A construção da creche não substitui a cracolândia do Jacarezinho, apenas transfere. Sim, porque se a prostituição que financia o consumo de crack na região era realizada naquele local, simplesmente vai passar para outro. Afinal, a favela é enorme e a vontade de cosumir a droga também. A creche serve apenas de estímulo indireto para as mães pobres da favela terem mais filhos. Digo isso porque há outras duas ou três creches apenas no Jacarezinho e as obras do PAC na vizinha Manguinhos, prevêem a construção de mais três unidades. O dinheiro que deveria ser investido em campanhas contra a gravidez precoce nas favelas ou até em cirurgias de ligadura de trompas para mulheres que possuem quatro, cinco filhos (e até mais), sem condições de criar sequer uma criança, vai ser usado para acolher esses bebês.

O Choque de Ordem da prefeitura não é revertido em votos, mas as creches nas favelas... Parte desse dinheiro poderia muito bem ser usado na construção de um centro de tratamento para dependentes do crack e de outras drogas, para que aqueles adolescentes destruídos pela droga possam um dia querer apenas distância da pedra maldita, como alguns a chamam. O Rio poderia ter um grande centro de referência na área e ajudar, de fato, esses jovens que nos chocam ao serem vistos pela TV. Do jeito que está, a prefeitura os recolhe, leva para abrigos e no dia seguinte estão todos deitados nas calçadas do Jacarezinho, entorpecidos pela droga.

Dinheiro da Pobreza foi para a Educação
E não precisava nem do Governo Federal e do PAC. Isso poderia ser feito aqui mesmo, pelas esferas de poder locais. Isso se o governo estadual usasse, por exemplo, verba do Fundo de Combate à Pobreza, que sai do ICMS que todos nós pagamos nas nossas contas mensais, como água, luz e telefone. Mas esse dinheiro foi usado pela secretaria de Educação para a compra de laptops para professores a um custo de R$ 70 milhões somente na primeira fase do projeto. Outros R$ 100 milhões estão sendo investidos num sistema eletrônico de controle de presença dos alunos da rede estadual, o tal conexão educação, que eles querem nos fazer acreditar que vai melhorar a qualidade da educação no estado...

Amigos, me perdoem. Acabei escrevendo demais. Mas assuntos como esse revoltam qualquer cidadão. Num estado e numa cidade em que jovens estão sendo destruídos pelo vício do crack, as autoridades se regozijam ao anunciar investimentos de R$ 496 mil para implementar um sistema de internet sem fio e com banda larga, no Morro Dona Marta. Enquanto o babaca aqui paga R$ 80 pelo Velox de 2 Gb.

2 comentários:

  1. é melhor morar na "comunidade", pois, não se paga água, luz, tem NET,banda larga, tudo de graça e nós é que pagamos essa conta toda. Sabia que a Light, cobra R$ 2,00 d cada consumidor para os inadimplentes e para sa "comunidades". Isso é simplesmente revoltante.

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  2. É por isso que o 'esperto' nesse país é admirado. Já quem anda na linha é visto como otário como nós, que temos de pagar pela conta dos outros.

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